quinta-feira, 4 de julho de 2013

REFLEXÃO - DIA DOS PAIS


Certas convenções parecem estar tão enraizadas em nosso modo de ver a vida e de viver, que ficam inquestionáveis. Com a comemoração do Dia dos Pais não é diferente.



Em todos os lugares onde presto algum tipo de colaboração, e também nas escolas, tornou-se uma espécie de obrigação criar algo especial para ser apresentado aos pais, e as crianças devem forçosamente confeccionar alguma lembrança para lhes dar de presente. 

Sinceramente, isto tudo me parece muito mais uma satisfação das educadoras para a casa espírita, para a coordenação das escolas e para as famílias das crianças, que uma atividade que reflete a realidade dos sentimentos de todos os envolvidos.

Não estamos aqui defendendo nenhuma ideia do tipo "deviam parar com isto", "é só uma data comercial". Afinal de contas, existem muitos e muitos pais que realmente merecem e ficam sensibilizados pelas lembranças e homenagens que recebem.

Só que, este ano, descobri que não concordo com o modo como lidamos com estas datas. E fico pensando nas crianças: será que elas concordam? Será que elas realmente estão contentes com os pais que têm? Será que elas realmente diriam as palavras que são colocadas em sua boca para recitarem, se tivessem escolha?

Não vejo sentido em trabalhar datas comemorativas como esta, em sala, se não conhecemos a realidade dos alunos, se eles não têm chance de refletir e de perceber como realmente se sentem enquanto filhos. 

Onde está seu pai? Ele mora com você? Quando foi que o viu pela última vez? Do que vocês falam? Onde vão juntos? Costumam brincar? De quê?...

Uma amiga minha contava, na segunda-feira, que os seus dois filhos mais novos passaram o domingo em prantos, porque tiveram a tradicional comemoração e presentes da escola para os pais, as tais mensagens e poesias de comportamento paterno idealizado, mas o seu próprio pai além de não morar com elas, nunca as visita e, quando telefona, nem pergunta como estão passando. Para muitos adultos, também não deixa de ser um dia difícil. E minha pergunta é: será nosso papel de educador acrescentar a estes alunos mais uma frustração, mais uma dor íntima, mais sentimento de rejeição do que elas já possuem?

Ou será que somos tão superficiais em relação a este assunto porque temos medo de ver a realidade como é e de não sabermos o que fazer com ela?

Por que não aproveitamos que todos estão falando disso para procurar entender a relação com esta criatura que chamamos de pai? Por que não aproveitamos para enxergar o ser humano que ele é, em vez de recitar poesias sobre o que ele nunca foi e, talvez, nunca venha a ser? Por que não verificamos as nossas expectativas em relação ao nosso pai, para ver se elas são reais ou fantasiosas, se elas nos fazem bem ou nos fazem sofrer, se elas nos fazem caminhar ou parar num ciclo de auto-piedade, em que culpamos os outros pelo modo como nos sentimos desprestigiados, negligenciados e rejeitados?

Nós precisamos compreender a paternidade além das convenções. Quem sabe, depois de algum tempo, nós realmente tenhamos, como produto da verdadeira reflexão de cada um e do aumento da percepção de si mesmo, poesias e mensagens que expressam, de verdade, nossos melhores sentimentos por nossos pais. 

Quem sabe possamos aprender a aceitar nossos pais como são, descobrindo as suas virtudes, estabelecendo um relacionamento pai/filho onde a sinceridade seja base do afeto e do respeito, no lugar da tentativa de resolver projeções e frustrações de um em relação ao outro.  - Rita Foelker

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